dialética negativa

Sunday, August 20, 2017

Anotações de: Zonas de sombra da poesia brasileira


Curso Zonas de sombra da poesia brasileira: o lugar da tradição delirante 2017-2


Aula 3 - Eduardo Guerreiro Losso:
Bases místicas do simbolismo
Dionísio Areopagita (escrito entre 476-510)- A HIERARQUIA CELESTE
"iniciamo-nos à medida de nossas forças nestas hierarquias de inteligências celestes tais como no-las revelam as Escrituras de maneira simbólica e anagògica. Após ter elevado os olhos imateriais e o firme olhar de nossa inteligência para esta efusão luminosa, fundamental e mais que fundamental, que vem do Pai teárquico, e que nos revela em figuras simbólicas as bem-aventuradas hierarquias angélicas, ultrapassamos esta própria efusão para nos apegar ao Raio simples da Luz em si.", p. 138
“§ 3. - E por isso que os santos iniciadores que primitivamente regularam nossos ritos, julgando bom organizar nossa hierarquia sagrada sobre o modelo das hierarquias celestes que não são deste mundo,
para no-las transmitir, revestiram estas hierarquias imateriais com uma variedade de figuras e de formas materiais, para que nos elevássemos, de maneira analógica, destes sinais santíssimos às realidades espirituais simples e inefáveis das quais são apenas imagens. É inteiramente impossível, com efeito, que nossos espíritos de homens possam chegar de maneira imaterial a imitar e a contemplar as hierarquias celestes, sem para isso usar meios materiais capazes de nos guiar, proporcionando-se à nossa natureza.
É assim que, para todo aquele que exerce sua reflexão, as aparências da beleza tornam-se as figuras (121 D] de uma harmonia invisível. Os bons odores, tais como tocam nossos sentidos, representam a iluminação intelectual. As luzes materiais significam esta efusão de luz imaterial da qual são as imagens. As argucias do ensinamento sagrado correspondem à plenitude intuitiva da inteligência. As ordens e os graus deste mundo [125 A] figuram as propriedades harmoniosas das legiões divinas. A recepção da santíssima Eucaristia simboliza a participação em Jesus. E assim por diante para todos os dons que recebem as essências angélicas conforme um modo que não é deste mundo, e que não nos são concedidos, a nós, a não ser de maneira simbólica.”, p. 139
“Seguramente, Deus apareceu a alguns homens
piedosos segundo o modo que convinha à sua divindade, revelando-se mediante visões santas, adaptadas à medida dos visionários. A santíssima teologia tem pois razão de chamar visão divina (“Teofania) esta espécie de aparição em que se reflete a similitude divina segundo o modo que convém à figuração do não figurável, isto é, elevando espiritualmente os visionários para as realidades divinas. Mediante esta visão, com efeito, os visionários recebem a plenitude da iluminação divina e certa iniciação sagrada a alguma coisa dos próprios mistérios de Deus.”, p. 153-154
Pseudo-Dionisio, o Areopagita. Obra completa. (tradução Roque Aparecido Frangíotti). São Paulo: Paulus. 2004.


Dante, Paraíso, Canto I
Beatriz a Dante: “e começou: "Às coisas dominante
uma ordem preside e lhes dá forma,
fazendo o cosmo a Deus consemelhante.


À ordem de que falo,
o natural de cada criatura, variamente,
se inclina, respondendo desigual


ao principio que as leva a diferente
porto, singrando o imenso mar do ser,
cada urna segundo sua vertente.”, p. 93-95
Campos, Haroldo de. Pedra e luz na poesia de Dante. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998.


Ficino- Cap. VII de Lumen: Os olhos celestes das divindades sorriem ao gozo das mesmas e se regozijam em seu esplendor e movimento
"O céu, como corpo das coisas celestes, ou, do mesmo modo, como olho delas (com efeito, Orfeu chama "olho" o Sol), ri em seu resplendor e se exalta em seu movimento diante do mesmo gozo admirável das coisas celestes... Como julgam os pitagóricos, as esferas dançam frente ao canto das divindades gozosas. Daí, com movimentos bem ordenados e variados confeccionem uma harmonia admirável; ante o riso dos astros, que principalmente se revela por seus raios, riem todas as coisas, tanto as que estão debaixo do céu quanto as que estão sobre a terra..." (cita PORFIRIO, Himnos órficos)


Swedenborg - O Ceú e o inferno, 1758

“Os antigos procederam de outro modo. A ciência das correspondências foi para eles a principal de todas as ciências. Por ela eles receberam a inteligência e a sabedoria, e por ela os que eram da igreja tiveram comunicação com o céu. Porque a ciência das correspondências é a ciência angélica. Os antiqüíssimos, que eram homens celestes, pensavam como os anjos, segundo a correspondência mesma. Por isso, eles conversavam com os anjos e o Senhor Se mostrava a eles freqüentemente, e os instruía.”


"102. Os anjos ficam estupefatos quando ouvem dizer que há homens que atribuem tudo à natureza e nada ao Divino, crendo também que o seu corpo, no qual foram reunidas tantas coisas admiráveis do céu, foi composto pela natureza, e crendo ainda que até o racional do homem procede também dela, quando, entretanto, tudo do homem procede do Divino e não da natureza, que foi criada unicamente para revestir o espiritual e para apresentá-lo correspondente no último da ordem. Os anjos comparam tais homens às corujas, que vêem nas trevas e nada avistam na luz."


"106. Em uma palavra, todas as coisas que existem na natureza, desde a menor até a maior, são correspondências. Elas são correspondências porque o mundo natural, com tudo o que o constitui, existe e subsiste pelo mundo espiritual, e um e outro pelo Divino. Diz-se também que ele subsiste, porque tudo subsiste segundo aquilo que existe, porque a subsistência é uma perpétua existência, e porque nada pode subsistir por si mesmo, mas toda coisa subsiste por uma anterior a si, assim por um Primeiro, do qual ela não pode, por conseguinte, ser separada sem perecer e sem se dissipar inteiramente.

107. Tudo aquilo que na natureza existe e subsiste pela ordem Divina é o Divino Bem que procede do Senhor. Ela começa por Ele, porque d'Ele desce pelos céus sucessivamente no mundo e termina nos últimos deste. As coisas que nele estão segundo a ordem são correspondências."


Ficino sobre Dionísio Areopagita
"Os Serafins especulam sobre a ordem e a providência de Deus
Os Querubins especulam sobre a essência e a forma de Deus.
Os Tronos também especulam, ainda que alguns desçam às obras.
Os Domínios, como arquitetos, planejam o que os restantes
executam.
As Virtudes executam, movem os Céus e concorrem para a
realização de milagres, como instrumentos de Deus.
As Potestades cuidam para que não seja interrompida a ordem do
governo divino, e algumas delas descem às coisas humanas.
Os Principados cuidam dos negócios públicos, nações, príncipes,
magistrados.
Os Arcanjos dirigem o culto divino e cuidam das coisas sagradas.
Os Anjos cuidam dos negócios menores e se encarregam dos
indivíduos, como seus anjos da guarda".
Os conhecimentos de Ficino sobre as hierarquias celestiais foram modificados por dois intermediários, Tomás de Aquino e Dante, além das modificações que ele próprio introduziu. As diferentes atividades das hierarquias, que não são especificamente definidas no Pseudo-Dionísio, ele as obteve em Tomás de Aquino.2 A ligação das hierarquias com as esferas do cosmos, ele as tirou de Dante, que no Convívio correlaciona as hierarquias com as esferas3 e, principalmente, no Paraíso instala as almas dos bem-aventurados nas esferas dos sete planetas; coloca os apóstolos e a Igreja Triunfante na oitava esfera; na nona, enfileira as nove hierarquias angélicas; e coroa a tudo com a Trindade no Empíreo.

YATES, Frances. Giordano Bruno e a tradição hermética. São Paulo, Cultrix, 1995, p. 141.

Friday, August 11, 2017

Teoria literária II-2017-02 Anotações


Para saber o programa do curso, ver:
http://eduardoguerreirobblosso.blogspot.com.br/2017/08/teoria-literaria-i-2017-02.html

Aqui estão recolhidas passagens importantes de teóricos, críticos, poetas e escritores que serão usadas no curso.

Theodor Adorno
"Sob a superficie do conformismo vigente, é inconfundível o potencial destrutivo da semiformação. Ao mesmo tempo em que se apossa fetichisticamente dos bens culturais, está sempre na iminência de destruí-los."
"Teoria da semiformação" (1959). In: Pucci, Zuin, Nabuco (orgs.) Teoria crítica e inconformismo. Campinas: Autores associados, 2010. Trad. de Newton Ramos-de-Oliveira.

Guy Debord
"O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência." af 12
"O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem presente faz sobre si própria, o seu monólogo elogioso. É o auto-retrato do poder na época da sua gestão totalitária das condições de existência."
af .24
Sociedade do espetáculo, Guy Debord, novembro de 1967.

Sunday, August 06, 2017

Curso de Pós: 2017-02- Zonas de sombra da poesia brasileira: o lugar da tradição delirante

Professores: Sergio Cohn e Eduardo Guerreiro B. Losso

TÍTULO DO CURSO: Zonas de sombra da poesia brasileira: o lugar da tradição delirante
EMENTA: Sob a condição de que se deve privilegiar obras e autores a partir de critérios realistas ou formalistas, associando qualidade à parca quantidade e jogando no esquecimento uma grande variedade produtiva de nossa história literária, a crítica no Brasil sempre atuou com base na lógica da escassez do deserto. Diante da necessidade de uma atualização crítica e de uma ampliação da cartografia da poesia brasileira, e aproveitando a possibilidade de grande acesso a documentos (livros, revistas e artigos) da internet, o curso pretende, ao contrário, trabalhar com a abundância da floresta: tendências que pensaram e praticaram diferentes perspectivas estéticas, ainda hoje depreciadas pela atenção majoritária da academia e do meio literário.
Nossa intenção não é cair nem no relativismo cultural nem nas defesas restritivas do cânone, antes, ampliar o horizonte teórico para outras perspectivas estéticas exploradas no passado e que, por terem sido derrotadas ou abdicado da luta de poder dentro do território da cultura, são hoje consideradas meros momentos superados para incensar os grandes heróis da crítica.
O curso dará atenção especial ao movimento simbolista, com sua enorme quantidade de revistas, textos teóricos e publicações, muitas delas ainda desconhecidas do público leitor e pesquisadores atuais, e a inauguração do que chamamos de tradição delirante, para, em seguida, demonstrar sua força crescente no século XXI: literaturas ameríndia e afrobrasileira, neosimbolismo da revista Festa, geração paulista dos anos 1960 e desdobramentos, retomadas e representações no novo milênio.  


Aula 1- Introdução

Aula 2- Dano histórico

(preferências da crítica e sua lógica da escassez)

Leituras: PRADO, Antonio Arnoni. "Elísio de Carvalho e o diário intemporal: Nos liames da tradição", In: Itinerário de uma falsa vanguarda - os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 92-122.

Aula 3- Mística e esoterismo na poesia

(cristianismo, paganismo e ateísmo, relação entre poesia, inefabilidade e ciência)

Leituras: James, William. "XVI E XVII CONFERÊNCIAS. O MISTICISMO". In: AS VARIEDADES DA EXPERIENCIA RELIGIOSA. Um estudo sobre a natureza humana. São Paulo: Cultrix, 1995, p. 237-267.

Aula 4- Tradição delirante
(gestos de subversão comportamental, excesso verbal versus contenção)
Leituras: Cohn, Sergio. "POESIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. Conversa com Renato Rezende". In: A reflexão atuante. Rio de Janeiro: Circuito, 2014.

Leituras: (Prefácio) Neto, Afonso Henriques. FOGO ALTO: CATULO, VILLON, BLAKE, RIMBAUD, HUIDOBRO, LORCA, GINSBERG. Rio de Janeiro: Azougue, 2009. 

Aula 5- Mística e simbolismo
Leituras: "1.4. Busca de novas realidades: satanismo, ocultismo, esoterismo, misticismo".
In: CAROLLO, Cassiana Lacerda. Decadismo e simbolismo no Brasil: crítica e poética. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1981, p. 53-80.

"O SWEDENBORGUISMO E OS ROMÂNTICOS"
In: BALAKIAN, Anna. O simbolismo. São Paulo: Perspectiva, 1985, p. 17-28.

Aula 6- Simbolismo e incompetência da cópia
Leituras: "Plataforma da nova geração", "VELHO PROBLEMA DO CINEMA BRASILEIRO: O CINEMA ESTRANGEIRO", "Ela (a pornochanchada) dá o que eles gostam?".
In: GOMES, Paulo Emílio Sales. Organização Adilson Mendes; Daniel Shinzato; Gabriel Collet. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2014, p. 26-55.

Aula 7- Revistas e pensamento

Aula 8- Revistas e pensamento

Aula 9- Revista Festa e neosimbolismo

Mais adiante informaremos sobre as aulas seguintes.


Bibliografia básica:

CAMPOS, Augusto de. Revisão de Kilkerry. São Paulo: Fundo Estadual de Cultura, 1970.

CAROLLO, Cassiana Lacerda. Decadismo e simbolismo no Brasil: crítica e poética. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1981.

CARVALHO, Elísio de. As modernas correntes estéticas na literatura brasileira.
Rio de Janeiro: Garnier, 1907.

COHN, Sergio (org.). Azougue 10 anos. Rio de Janeiro: Azougue, 2004.

LOSSO, Eduardo Guerreiro Brito. Ciranda da poesia. Renato Rezende por Eduardo Guerreiro B. Losso. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.

MURICY, José Cândido de Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro I e II. Brasilia: Instituto Nacional do Livro, 1973.
PEREIRA, Edimilson. Orfe(x)u e Exunouveau. Rio de Janeiro: Azougue, 2017.
PRADO, Antonio Arnoni. Itinerário de uma falsa vanguarda - os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo. São Paulo: Editora 34, 2010.
RISÉRIO, Antonio. Textos e tribos. São Paulo: Brasiliense, 1992.
WILLER, Claudio. Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Teoria literária II - 2017-02



Teoria literária II - 2017-02
terças e quintas, 18-20h

Ementa: Estudaremos teoria do gênero literário abordando, nas origens da história da literatura, como se iniciou a necessidade da fixação das formas e sua diferenciação, para se chegar as formas simples e se desenvolver os gêneros complexos. Pensaremos sobre a relação da obra cultural com o aparelho perceptivo humano. Estudando especialmente a poesia, leremos alguns textos teóricos clássicos e contemporâneos e dar atenção tanto à forma do soneto quanto gêneros de fronteira, como o poema em prosa, de modo a questionar as fixações dos gêneros. Daremos especial atenção à revolução formal do simbolismo para chegar aos impasses da discussão da cultura pós-moderno e contemporânea, especialmente a relação entre a indústria cultural e a vida poética.


Anotações que serão consultadas em aula:
http://eduardoguerreirobblosso.blogspot.com.br/2017/08/teoria-literaria-ii-2017-02-anotacoes.html

Textos literários:
Charles Baudelaire - Pequenos poemas em prosa e
Flores do mal

Cruz e Sousa - Evocações
Raul Pompeia - Canções sem metro

Textos teóricos:
Walter Benjamin-alguns textos: 1- Surrealismo, 2- Melancolia de esquerda, 3- Doutrina das semelhanças, 4- Experiência e pobreza

Theodor Adorno_Horkheimer-Conceito de esclarecimento

 Fredric Jameson: “Pós-modernismo ou a lógica cultural do capitalismo tardio”
Jean Baudrillard, "A precessão dos simulacros" Guy Debord- A separação Acabada

Ivan Junqueira- O simbolismo

Sobre gêneros literários:
Angelica Soares-Gêneros Literarios


livro sobre análise literária:
Massaud Moisés - Análise literária
Consulta de dicionários:
Dicionário de teoria da narrativa
Diccionario de los símbolos

Como fazer o trabalho:
Instruções de como fazer o trabalho

Cronologias
http://eduardoguerreirobblosso.blogspot.com.br/2014/08/observacoes-teoria-literaria-iii-2014.html
http://eduardoguerreirobblosso.blogspot.com.br/2013/11/cronologias-de-literatura-e-filosofia.html

"Aos países licenciosos e dissolutos! - a serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares."
Rimbaud
"Monumento que cresce sem cessar com descobertas quotidianas, em vossas minas de diamantes, e com explorações científicas, em vossos soberbos domínios. Ó matemáticas santas, que possais, por vosso comércio perpétuo, consolar o restante dos meus dias da maldade do homem e da injustiça do Grande Todo!"
Lautréamont
"Ε apenas encontrou na ideia gasta
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!"

Augusto dos Anjos

Wednesday, May 03, 2017

CURSO DE EXTENSÃO: A teoria da literatura em seus textos fundamentais - 2017

CURSO DE EXTENSÃO: A teoria da literatura em seus textos fundamentais: apoio à formação de monitores

Data: terça-feira, de  16 de maio a 5 de setembro, 14h, sala F-223

O curso pretende apresentar e discutir textos fundamentais para a constituição da teoria da literatura ao longo do século XX, procurando, desse modo, criar uma base sólida e comum para aqueles alunos que atuam como monitores de Teoria da Literatura e para o público em geral que pretenda estabilizar os conhecimentos de teoria da literatura visando ao desempenho docente. O curso pretende oferecer uma visão panorâmica, porém evitando os manuais de teoria ou os resumos da sua história, apelando às fontes primárias dos movimentos e observando como esses textos foram lidos ao longo do século e em diversos lugares, e estabelecendo pontes com seu contexto de produção e com outros textos e disciplinas. O curso pretende incentivar o exercício docente dos participantes, que estarão encarregados de realizar apresentações periódicas, treinando, assim, a capacidade de resposta às expectativas dos alunos, e a capacidade expositiva clara e o domínio do tópico. O curso será organizado com um encontro semanal de 2 horas. Cada texto proposto no programa será apresentado e discutido ao longo de dois encontros.
Conteúdo programático: 
1) 16 e 23 de maio: Danielle Corpas - Walter Benjamin, "Pequena história da fotografia". Leitura complementar: Siegfried Kracauer, "A fotografia"
2) 30 de maio e 6 de junho: Flavia Trocoli - Didi-Hubermann/Proust 
3) 13 e 20 de junho: João Camillo Penna - Gilles Deleuze: "Literatura e vida" (in: Crítica e clínica). Leitura complementar: Giorgio Agamben: "Forma-de-vida" (in: Meios sem fim); Michel Foucault: "A escrita de si"  (in: Ditos e escritos, V).
5) 17 de agosto e 24 de agosto (mudo o dia para quinta): Eduardo Guerreiro B. Losso - Fredric Jameson: “Pós-modernismo ou a lógica cultural do capitalismo tardio”. Leitura complementar: Jean Baudrillard, "A precessão dos simulacros" e Guy Debord- A separação Acabada
6) 29 de agosto e 5 de setembro: Alberto Pucheu - "Ideia da prosa", Agamben.

Sunday, April 30, 2017

teoria literária I - anotações



Para maio de 2017


“Somos levados a contemplações bem agradáveis quando lidamos com o lado poético da alquimia, ao podermos designá-la a nosso modo, com o espírito livre.”
Goethe

Baudelaire
"Aqueles que não são poetas não compreendem estas coisas. Fourier veio um dia, com demasiada pompa, revelar-nos os mistérios da analogia. Não nego o valor de algumas de suas minuciosas descobertas, embora acredite que seu cérebro estava excessivamente tomado de exatidão material para não cometer erros e para atingir de pronto a certeza moral da intuição. Ele poderia ter-nos revelado, de modo igualmente precioso, todos os excelentes poetas nos quais a humanidade leitora faz sua educação, tanto quanto na contemplação da natureza. Aliás, Swedenborg, que possuía uma alma bem maior, já nos ensinara que o céu é um homem muito grande; que tudo, forma, movimento, número, cor, perfume, no espiritual como no natural, é significativo, recíproco, converso, correspondente. Lavater, limitando à face do homem a demonstração da universal verdade, nos havia traduzido o sentido espiritual do contorno, da forma, da dimensão. Se estendermos a demonstração (não só temos esse direito, como nos seria infinitamente difícil proceder de outra forma), chegaremos à verdade de que tudo é hiero glífico, e bem sabemos que os símbolos não são obscuros senão de uma maneira relativa, isto é, segundo a pureza, a boa vontade ou a clarividência inata das almas. Ora, o que é um poeta (uso a palavra em sua acepção mais ampla), senão um tradutor, um decifrador? Nos excelentes poetas, não há metáfora, comparação ou epíteto que não seja de uma adaptação matematicamente exata na circunstância atual, porque essas comparações, essas metáforas e esses epítetos são colhidos ao inesgotável fundo da universal analogia, e porque não podem ser colhidos alhures. Agora, perguntarei se encontraremos, procurando minuciosamente, não somente em nossa histeria, mas na história de todos os povos, muitos poetas que sejam, como Victor Hugo, um repertório tão magnífico de analogias humanas e divinas."
Baudelaire, Reflexão sobre alguns de meus contemporâneos, Vitor Hugo. In: Baudelaire, Charles. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 595-596.

"A cismadora criança experimenta a vertigem do azul e a alma escapa, sedenta de amplidão, e voa ao encalço das estrelas"
(Raul Pompeia, Canções sem metro, 1900)


Mario Pederneiras - poeta simbolista do Rio de Janeiro
"Tu, minha linda Terra Carioca! {...}
Esquecida
Da feição providencial dos tempos primitivos,
A tua vida
Agora é esta,
Agitada, immodesta,
Toda feita de pompas e attractivos;
Os effeitos da luz ou as nuanças da côr,
Teu aspecto feliz e teu ar escorreito,
Tudo parece preparado e feito
Para a franca explosão do pasmo exterior,
Para a larga attração do dinheiro europeu." p. 30-31

"E, demais, quem não ama a Terra em que nasceu ?

Quem sabe mesmo se este desageito,
Que me parece que amollenta e enfada
Os dias claros e as manhãs serenas
Da vida calma de um logar remoto,
E esta superioridade,

Que proclamo e noto,
Da minha Terra sobre a Terra alheia,
Não são mais que o effeito,
De um natural syntoma neurasthenico
De um legitimo filho da Cidade ?"
Pederneiras, Mario, 1868-1915.  Outomno : versos - 1914. Rio de Janeiro: Livraria Editora Leite Ribeiro, 1921, p. 25, do poema "TERRAS ALHEIAS"

Murilo Mendes
"Tenho sede generosa,
Nenhuma fonte me basta.
Irmão! Vou te levar
O trigo das terras do Egito,
Até o trigo que não tenho.
Egito! Egito! Amontoei
Para dar um dia a outrem:
Eis-me nu, vazio e pobre.
A sombra fértil de Deus
Não me larga um só instante.
Tirai-me o colar da febre:
Eu vos deixo minha sede,
Nada mais tenho de meu."
1 MENDES, Murilo.
As metamorfoses

"A actividade humana augmenta, n'uma progressão pasmosa. Já os homens de hoje são forçados a pensar e a executar, em um minuto, o que os seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relámpagos no cerebro, e de rufos de febre no sangue. O livro está morrendo, justamente porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, á leitura de cem paginas impressas sobre o mesmo assumpto. Talvez o jornal futuro,— para attender á pressa, á ansiedade, á exigência furiosa de informações completas, instantaneas e multiplicadas,—seja um jornal fallado, e illustrado com projecções animatographicas, dando, a um só tempo, a impressão auditiva e visual dos acontecimentos, dos desastres, das catástrophes, das festas, de todas as scenas alegres ou tristes, serias ou futeis, d esta interminável e complicada comedia, que vivemos a representar no immenso tablado do planeta..."
Olavo Bilac, 1904

"E como pássaros fechados dentro das prisões a cantarem baladas ao sol, aqui estou neste exílio da vida cantando e vibrando de uma doçura que não sei de onde veio"
Santa Rita Junior (1879—1944)

Lívio Barreto
"Ora quem diria que eu
Nihilista da hypocrisia,
De quem até se dizia.
Ser atheu,
Havia de ir para o seio
Fluidicamente pacato
Da burgueza sociedade,
Como um morganho que veiu
De muito boa vontade
Cahir na bocca de um gato!"
Lívio Barreto: 1870 — 1895
Poeta cearense simbolista de vida curta... O poema provavelmente foi escrito entre 1892-1895.

Antonio Candido
"O que é preciso não é banir a especulação a pretexto de
eficiência (bela eficiência temos tido nós, que não sabemos especular!), mas especular sempre e cada vez mais. Os temas aparentemente mais absconsos encerram uma semente de progresso espiritual e, portanto, cultural. O que falta ao Brasil não é apenas pensar a sua realidade, mas pensar os velhos problemas da filosofia, para que não fiquemos emparedados num nacionalismo sem sentido"
Antonio Candido em 1945
Notas de Crítica Literária — A filosofia no Brasil In: Candido. Antonio. Textos de intervenção. Seleção, apresentações e notas de Vinícius Dantas. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002, p. 264.

Graça Aranha
"Por isso a mocidade que surge é poderosamente analysta. Analysar a Terra, examinar todas as possibilidades do paiz, sondar os seus abysmos physicos e moraes, é a lição sportiva que retempera a armadura do joven moderno. Por esse supremo methodo, o conhecimento não se limita á analyse das forças actuaes e perennes, estende-se ao passado para saber as origens, e situar os factos nas suas épocas com. limpidez e decisão, sem recorrer ao engodo da perspectiva convencional". p. 8

"O espirito tudo transmuda em funcção esthetica, seja a religião pela criação das formas, pelo movimento ascensional do homem á divindade, seja a sciencia na analyse, na synthese, na transformação da matéria, seja a arte pela naturalidade realisadorà dos valores essenciaes e pela fusão do ser humano no Universo, seja a politica no equilibrio das classes na geometria da construcção nacional, na trajectoria do destino do paiz, seja a simples vida que é a busca da harmonia entre os seres e destes com o Universo, de que são fragmentos, em tudo a esthetica como a sublime luz, que é dada aos ephemeros para perceber nas miragens da consciência o inexorável e infindo mysterio do Inconsciente". p. 11
Aranha, Graça. MOCIDADE E ESTÉTICA. Estética. Rio de Janeiro, ano 1, v. 1, n. 1, p. 3-11, set. 1924.


Jean-Luc Nancy; Anne-Marie Lang; Philippe Lacoue-Labarthe
La « poésie romantique » dont il sera sans cesse question dans ce
livre a toujours voulu signifier ce qu'elle signifie — non sans ironie, mais
pas non plus sans ambiguïté — dans ce propos de Dorothea Schlegel :
« Puisqu'il est décidément contraire à l'ordre bourgeois et absolument
interdit d'introduire la poésie romantique dans la vie, que l'on fasse plutôt
passer sa vie dans la poésie romantique; aucune police et aucune institution
d'éducation ne peut s'y opposer. »
Lettre à ses fils citée in Ullmann et Gotthard (cf. p. 8, n. 1), p. 61.
p. 14
La Romantik, clans plusieurs
autres fragments posthumes, est la rubrique d'une « science » analogue à
la Poetik, à la Physik ou à la Mystik.
p. 15

17
comme le noyau d'une organisation appelée à se
développer en « réseau » et le modèle d'une pratique de vie nouvelle.
Friedrich, qui tiendra le plus à cette forme de communauté et en sera le
véritable animateur, sera finalement tenté d'en parler en termes de société
secrète.
Jean-Luc Nancy; Anne-Marie Lang; Philippe Lacoue-Labarthe. L'absolu litteraire: theorie de la litterature du romantisme allemand. Paris: Éditions du Seuil, 1978.

Monday, March 13, 2017

Curso de Teoria Literária I- 2017-01



Terça e quinta, turma 1: 11:10 - 12:50

Turma 2: 14:00 às 15:40

Primeira aula: poema de Armando Freitas Filho

Avaliação para Rita
"Infantil." Quando em voz baixa a ferida foi nomeada, ela começou a sangrar, ininterrupta para quem a sofria sem saber se era dor ou aprendizado.
A vida da ferida era sua vida mais castigo do que crime copiada desde o começo: dever de caligrafia em caderno pautado sobre a carteira que estendeu sua tábua até a mesa do escritório.
A letra inicial foi se formando através de sete décadas, e continua corrigindo o tremor da primeira folha e chega à de hoje, tremida por outro motivo e sentimento.

FILHO, Armando Freitas. Dever. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 65.

Veja o material de: Trechos para aula Poesia e despersonalização

Leituras teóricas:
Friedrich Schlegel- conversa sobre poesia (p. 29 a 46)
André Jolles- "o mito", do livro Formas simples
George Steiner - Tigres no espelho, sobre Borges

Textos literários:
Charles Baudelaire - Pequenos poemas em prosa e
Flores do mal
Cruz e Sousa - Missal
Jorge Luis Borges - O aleph (ler "Os teólogos" e o último conto, cujo título é "O aleph")
Fernando Pessoa /Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos


Tuesday, November 15, 2016

Trechos para aula Poesia e despersonalização- aula-17/11/2016


Aula sobre o livro:


Resumo do livro:
http://www.revistaserrote.com.br/2015/06/cultura-do-deficit-de-atencao/

“Alguma coisa me fica do mundo antigo.”

Murilo Mendes (1994, p. 110)
“Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie” (BENJAMIN, 1994, p. 225)

A palavra cria o real?
O real cria a palavra?
Mais difícil de aferrar:
Realidade ou alucinação?

Ou será a realidade
Um conjunto de alucinações? (MENDES, 1994, p. 739)

ENTREFILMADO
“o filme parou meus relógios [...]
eu procurei uma vertigem qualquer
onde me apoiar [...]
a luz do filme coagulou meu pensamento
e vi sobre o planalto
as tribos todas se sucedendo
as raças todas se misturando na correnteza
de explosões e crônicas e azedumes
e chibatas e delírios e dinheiro
dinheiro dinheiro”
Afonso Henriques Neto (1985, sem numeração de página)

“No filme, a percepção sob a forma de choque se impõe como princípio formal. Aquilo que determina o ritmo da produção na esteira rolante está subjacente ao ritmo da receptividade, no filme” (BENJAMIN, 1989, p. 125; BENJAMIN, 1991, p. 631).

1935: “Quanto aos espíritos, já se vê que são solicitados e seduzidos por tantos prestígios imediatos, tantos excitantes diretos que lhe dão, sem esforço, as sensações mais intensas e representam-lhes a própria vida e a natureza totalmente presente, que podemos duvidar se nossos netos encontrarão o menor sabor nas graças antiquadas de nossos poetas mais extraordinários e de qualquer poesia em geral” (VALÉRY, 1991, p. 185).

Aldous Huxley, em Céu e inferno, diz que a Londres ainda do final do século XIX possuia “letras luminosas” que, projetando-se “contra o céu eram uma novidade, e tão raras eram que rasgavam o manto da noite ‘quais pedras de um adereço’”. O autor cita aqui o original like captain jewels in the carcanet Soneto 52 de Shakespeare (SHAKSPEARE, 1821, p. 273). “[...] Hoje não há mais encantamento. O néon está em toda parte e, assim sendo, perdeu seu efeito sobre nós” (HUXLEY, 1966, p. 75-76).
(BAUDELAIRE, 1986, p. 41, “enquanto nós, poetas e filósofos, regeneramos nossa alma pelo trabalho sucessivo e pela contemplação; pelo exercício assíduo da vontade e pela nobreza permanente da intenção, criamos para nosso uso um jardim de beleza verdadeira”).

“Outra cidade”, de Gab Marcondes
era uma cidade
onde poucos
andavam na rua
as autoridades, os jornais
diziam que era perigoso

nano receptores auriculares
carros inteligentes
óculos de interatividade visual
dispositivos para locomoção
toda espécie de próteses

andar na rua
se expor ao vento,
sol, calor, frio, chuva,
doenças contagiosas
radiações, medo
era coisa de pobres,
loucos, idiotas
ou revolucionários

nessa cidade
um poeta atirou uma pedra para quebrar uma vitrine

mas era uma cidade inexistente
lá os vidros não quebram

aqui os cacos
ainda estão no chão
quem ali pisou
viu surgir
um corte
uma incisão
de onde saiam
as seguintes palavras:

Em caso de emergência pare o tempo
(MARCONDES, 2014, p. 13)

“Marx havia dito que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Mas talvez as coisas se apresentem de maneira completamente diferente. É possivel que as revoluções sejam o ato, pela humanidade que viaja nesse trem, de puxar os freios de emergência” (LÖWY, 2005, p. 93-94; BENJAMIN, 1991, p. 1232).

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften I. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1991.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.
HUXLEY, Aldous. As portas da percepção e O céu e o inferno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de historia”. Sao Paulo: Boitempo, 2005.
MARCONDES, Gab. Em caso de emergência pare o tempo. Rio de Janeiro: Circuito, 2014.
MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar,
1994.
NETO, Afonso Henriques. Tudo, nenhum. São Paulo: Massao Ohno, 1985.